segunda-feira, 21 de maio de 2018

ACIS AND GALATEA, Teatro Amazonas, Manaus, Maio 2018


BARROCO AO ESTILO AMAZONENSE EM "ACIS AND GALATEA". CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA& BALLET.




A apresentação da ópera "Acis and Galatea" de Händel pelo XXI Festival Amazonas de Ópera mostra ousadias poucas vezes vistas em teatros pelo Brasil. A primeira é montar ópera barroca, os diretores fogem dela como diabo foge da cruz já que fazê-la apresenta enormes dificuldades: vozes específicas e raras no Brasil, instrumentos de época, títulos longos, repetitivos, desconhecidos do público e muitas vezes chatos. Por isso os teatros preferem Traviatas, Toscas e Carmens. Outra ousadia é transportar as similaridades da mitologia grega para a amazônica. O público local pode se identificar com o tema, mas escorregar para o clichê e o démodé é fácil. 

O resultado da apresentação do dia 13 de Maio é uma ópera uniforme onde as dificuldades são vencidas com uma montagem inteligente e criativa acompanhada pelo que se viu de muitos ensaios. A transposição dos mitos não afetou o resultado, Galatea é a mãe d'água Iara, Acis é ribeirinho e Polifemo é um Mapinguari. A visão de Sergio Andrade tem qualidades que vencem a monotonia da ópera barroca. A movimentação dos solistas e coro resulta em uma dinâmica poucas vezes vista nesse estilo. O colorido dos cenários unido a beleza da luz junto com o figurino dão uniformidade no conjunto.

A dança é destaque que aparece diversas vezes e enriquece o enredo, o Balé Experimental do Corpo de Danças do Amazonas apresenta uma coreografia elaborada por Tindaro Silvano. Os movimentos simples transportam o espectador à mitologia onde ninfas e sereias parecem flutuar ou dançar nas águas do Amazonas. Os cenários Georgia Massetani são adequados, os figurinos de Laura Françoso compatíveis com os mitos amazônicos, o personagem Polifemo destoa de tudo isso com um figurino exageradamente pesado. O desenho de luz de Humberto Hernández é um primor de qualidade, realça as cenas tornando-as impactantes.


Marcelo de Jesus rege a Orquestra de Câmara do Amazonas, consegue extrair musicalidade barroca refinada com mistura de instrumentos atuais e de época. O Coral do Amazonas e o Madrigal Ivete Ibiapina não brilharam embora não tenham comprometido vocalmente. 
   
Cantar música barroca é extremamente difícil, a surpresa fica com o soprano Amanda Aparício. Vinda do coro local apresentou-se de maneira correta diante das dificuldades da partitura. A voz tem timbre lírico, pequena e afinada. Sofreu com os complexos ornamentos e coloraturas inerentes a opera barroca, cantou com expressividade e sua presença de palco realçou a personagem. O tenor Anibal Mancini tem o barroco no sangue, ficou a vontade com o personagem Acis. Cantou de forma sublime com sustentação apropriada e entoação perfeita. Miriam Abad teve bom desempenho vocal, volume considerável e consistência nas notas em todas as participações como Damon. Murilo Neves deu vida a um Polifemo com graves leves para as exigências do personagem. Falta o peso e densidade na voz para ser um Deus grego ou amazônico.

Ali Hassan Ayache viajou a Manaus a convite do XXI Festival Amazonas de Ópera.

sábado, 19 de maio de 2018

FLORENCIA EN EL AMAZONAS, Teatro Amazonas, Manaus, Maio 2018


O REALISMO MÁGICO DE "FLORENCIA EN EL AMAZONAS". CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.




Quando o assunto é ópera moderna, novinha e com menos de 50 anos sempre torço o nariz. Os compositores que se enquadram nessa linha geralmente adotam a barulheira como tema principal. A busca de desconhecidas óperas tem sido uma característica do Festival Amazonas de Ópera, na sua XXI edição apresenta um título interessante. Mais que mera curiosidade "Florencia en el Amazonas" é uma ópera de notável qualidade em diversos aspectos: enredo fantástico, música com belas melodias e montagem moderna.  

Estreou em 1996 e contém elementos do realismo mágico ao estilo Gabriel Garcia Marques, seu libreto em espanhol é de uma de suas alunas, Marcela Fuentes-Berain. Conta a história de uma famosa e misteriosa soprano, Florencia Grimaldi, que viaja da Colômbia pelo Rio Amazonas a fim de se apresentar no teatro da capital amazonense e encontrar seu grande amor. Dizem ter cancelado uma apresentação no Scala de Milão para cantar no Teatro Amazonas.

Surpreendentemente o compositor mexicano Daniel Cátan não segue os modismos e faz uma composição de rara beleza musical. Sua linha melódica é de uma beleza ímpar, a música acompanha a ação com passagens orquestrais densas unidas a trechos minimalistas que interagem e dão forma definida as cenas. Raramente um compositor do século XX consegue linhas melódicas tão incisivas e adequadas ao libreto. Casamento perfeito entre música e texto. Um Debussy moderno com seu minimalismo empolgante. 

Tamanha qualidade musical só pode existir se a orquestra estiver a altura da partitura. A Orquestra Amazonas Filarmônica regida por Luiz Fernando Malheiro apresentou musicalidade exuberante com sons descritivos únicos e sonoridade no volume compatível com a sala. Extraiu toda a beleza musical da partitura.

A produção é originária da Colômbia com partes feitas no Brasil. Os cenários de Julián Hoyos evocam um barco e conforme o andar das cenas vão alterando seu formato. A projeção no fundo mostra o Rio Amazonas no primeiro ato e muda com o desenrolar das cenas.  

A simplicidade se une a dinâmica nessa montagem que explora todas as dimensões do palco. História bem contada onde o público desconhece o libreto não precisa de direção mirabolante, em "Florencia en el Amazonas" o diretor de cena Pedro Salazar consegue ser sucinta, ágil e explicar sem complicar. Os figurinos de Olga Maslova são adequados ao libreto, mais acerto da montagem.  

A protagonista é interpretada por Daniella Carvalho, soprano de canto elegante que enfrenta na entrada e na sua última participação árias de difícil interpretação. Conseguiu dar brilho a personagem com voz de timbre harmonioso, pela complexidade da partitura é perdoável algumas derrapadas nos agudos. Imprimiu credibilidade e intensidade com técnica vocal de excelência e exuberante atuação cênica. 



Quem se destaca é a cantora amazonense Dhijana Nobre, a jovem tem um colorido vocal encantador onde agudos brilhantes se unem a um timbre delicado. Como Rosalba consegue se mostrar pronta para voos maiores, quem deu a chance ao soprano fez uma excelente descoberta. 

Eric Herrero deu vida a Arcadio, tenor com voz potente e timbre adequado. Projeção vocal que enche o teatro e atuação cênica condizente mostra consistência nas apresentações do cantor. Mere Oliveira é mezzo-soprano com timbre escuro e voz potente. Mais uma vez se apresentou em excelente nível, deu vida a personagem Paula com grandes atributos vocais e cênicos. Pena que o público paulista a veja raras vezes.

O Alvaro de Inácio de Nonno entregou graves quentes e portentosos e o baixo-barítono Homero Perez fez um Riolobo a altura do personagem. O elenco se mostra equilibrado em todas as vozes, a escalação acertada prova mais uma vez que é possível fazer óperas de qualidade com vozes nacionais presentes nos papéis principais.

É duro dizer isso, mas a verdade é implacável. O XXI Festival Amazonas de Ópera faz em pouco mais de um mês, são cinco óperas, o que teatros de São Paulo e Rio de Janeiro não fazem em um ano e com verbas infinitamente menores. 

Ali Hassan Ayache viajou a Manaus a convite do XXI Festival Amazonas de Ópera. 

terça-feira, 15 de maio de 2018

PARSIFAL – Staatsoper unter den Linden, Berlim /Berlin, Março / March 2018


 (review in English below)
Mais um texto sobre o Parsifal de R. Wagner, este sobre a produção da Staatsoper unter den Linden Berlim.

A Orquestra com sonoridade fantástica, contudo Barenboim muito rápido na música da transformação... e no 1º acto os metais com algumas fífias e no 3º acto demasiadas para a Staatsoper (ao nível do ataque nas entradas)...

Schager excelente e com uma potência vocal brutal sem gritos :) roçou o histriónico no 2º acto mas acho que assim o obrigou o encenador. Em Bayreuth, embora estivesse na fila 28, não soou tão exagerado. Mas esteve ao mais alto nível e isto não é uma crítica negativa.





Stemme regular e igual em tudo às suas Kundry, mantendo aquela questão da dissociação dos agudos (abre boca, atraso na saída do som). Embora reconheça que é uma excelente Wagneriana, acho que ainda não está no ponto como Kundry (nem sei se vai estar)... Ruxandra Dunose emocionou-me mais no Parsifal de Baden Baden e a Elena Pankratova foi brutal em Bayreuth, já para não falar na batida Anja Kampe que prefiro ouvir à Stemme.




Pape com voz excelente, muito mais solto dramaticamente no 3º acto do que no 1º mas com períodos de alguma rigidez dramática, ou seja, algumas posturas e movimentos que me pareceram impostos pela encenação e que impedem a transmissão credível voz-corpo das emoções.




Há cantores que nasceram para fazer o papel de vilão e Falk Struckmann é um deles :) Ele que já foi dos melhores Amfortas no activo, que sem grande sucesso tentou ser Gurnemanz, encontra aos 60 anos, um papel que lhe encaixa como uma luva e que é o de Klingsor. Absolutamente espectacular! Esta encenação, o que tem de melhor é mesmo o 2º acto e foi o melhor acto da noite.



Reinhard Hagen fantástico como Titurel em tudo o que se lhe pede.


Lauri Vasar, repetindo o papel de Zurich, não é espectacular... esteve melhor no 3º acto mas não é um Amfortas lírico, emocionalmente credível mas é bem melhor do que ver o Wolfgang Koch passear os seus pneus em palco (na estreia desta encenação e que está em DVD). O Koch também é daqueles que é brutal para papel de mau e que não encaixa mesmo no Amfortas... Depois de ouvir o Gerald Finley a semana passada, o que hoje ouvi não me impressionou muito...


Acho que a Staatsoper e em particular esta encenação, coloca os cantores muito no fundo do palco e, embora estes sejam do mais alto nível e com potência eficaz de voz, a acústica contraria-os um bocado.

Já vi 3 Parsifal nesta temporada, faltam 2 (Paris e Bayreuth) e acho que daria nota *** ao de Zurich, ****+ ao de Baden Baden e **** a este da Staatsoper de Berlim.

Texto de wagner_fanatic.



PARSIFAL – Staatsoper unter den Linden, Berlin, March 2018

Another text on R. Wagner’s Parsifal, this one on the production of the Staatsoper unter den Linden, Berlin.

The Orchestra with fantastic sonority, however Barenboim very fast in the music of the transformation ... and in the 1st act the metals with some mistakes and in the 3rd act too many for the Staatsoper (to the level of the “attack” in the entrances)...

Schager excellent and with a brutal vocal power without shouts :) graced the histrionic in the 2nd act but I think that was forced the director. In Bayreuth, although I was in row 28, it did not sound so overdone. But he was at the highest level and this is not a negative review.

Stemme was regular and equal in all to her Kundry, keeping that question of the dissociation of the top notes (open mouth, delay in the output of sound). Although I recognize that she is an excellent Wagnerian, I think she is not yet at the point as Kundry (I do not know if she will ever be) ... Ruxandra Dunose moved me more in the Parsifal of Baden Baden and Elena Pankratova was brutal in Bayreuth, not to mention Anja Kampe that I prefer to listen to Stemme.

Pape with excellent voice, much more dramatically loose in the 3rd act than in the 1st but with periods of some dramatic rigidity, that is, some postures and movements that seemed to me imposed by the staging and that prevent the credible voice-body transmission of the emotions.

There are singers who were born to play the role of villain and Falk Struckmann is one of them :) He who was once the best Amfortas in the active, who without great success tried to be Gurnemanz, finds at age 60, a role that fits him like a glove and which is that of Klingsor. Absolutely spectacular! This staging, what has best is the 2nd act and it was the best act of the night.

Reinhard Hagen was fantastic as Titurel in all that is asked of him.

Lauri Vasar, repeating the role of Zurich, is not spectacular ... he was better in the 3rd act but he is not a lyrical, emotionally credible Amfortas but he is much better than watching Wolfgang Koch ride his tires on stage and that is on DVD). Koch is also one of those who is brutal to bad characters and does not fit into Amfortas ... After listening to Gerald Finley last week, what I heard today did not impress me very much...

I think Staatsoper, and in particular this staging, puts the singers in the back of the stage, and although they are of the highest level and with effective power of voice, the acoustics contradict them a bit.

I have already seen 3 Parsifal this season, there are 2 left (Paris and Bayreuth) and I think I would give a mark *** to Zurich, **** + to Baden Baden and **** to this one from the Berlin Staatsoper.


Text from wagner_fanatic.

sábado, 12 de maio de 2018

O MATRIMÔNIO SECRETO – Theatro São Pedro/SP, São Paulo, Maio de 2018



De Ali HassanAyache, do blogue Opera & Ballet recebemos mais este texto para divulgação. O Fanáticos da Ópera agradece ao autor.

POUCAS RISADAS, CORES EM EXCESSO E ALFRED HITCHCOCK NO "MATRIMÔNIO SECRETO". CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.

 O Theatro São Pedro/SP abre a temporada 2018 com a ópera "O Matrimônio Secreto" de Domenico Cimarosa. O prolífico compositor italiano tem mais de 70 títulos e somente esse permanece no repertório. "O Matrimônio Secreto" tem todos os elementos da ópera bufa: confusões generalizadas, personagens querendo levar vantagem, segredos revelados no fim, casamentos arranjados, nobres falidos querendo manter sua pose e ricos comerciantes tentando ser nobres.  
   Musicalmente a ópera é uniforme, escrita para agradar o público da época com árias simples e de fácil assimilação. O libreto manjado facilita a diversão do público. "O Matrimônio Secreto" foi um tremendo sucesso na época de sua estreia. Para a geração celular e zapzap é excessivamente longa, muitas vezes repetitiva e cansativa. Soube que a versão apresentada sofreu alguns cortes, a tesourada poderia ter sido maior.
   
   O cenário de Duda Arruk é inspirado no filme "Janela Indiscreta" de Alfred Hitchcock, com ambientes sobrepostos onde o espectador vê as cenas no lugar do personagem principal. Os figurinos de Fause Haten são exagerados, misturam épocas e criam confusão no colorido excessivo embora sejam compatíveis com o gênero da ópera bufa. A direção de Caetano Vilela acerta na dinâmica das cenas, mostra as facetas dos personagens com simplicidade. A funcionalidade unida a criatividade prevalece no todo fazendo o espetáculo ter qualidade, embora tenha faltado uma pegada cômica, poucas vezes o público sorriu com vontade.
  


   Valentina Peleggi surpreendeu regendo ópera, tirou da Orquestra do Theatro São Pedro boa sonoridade operística unida a musicalidade de uma grande orquestra de concerto. Delicada quando necessário e potente nas partes instrumentais. Nunca encobre os solistas, ao contrário, é amigona deles, marcando todas as entradas. Entendendo o tamanho do teatro faz o volume compatível com o mesmo. Alguns músicos entregaram solos sofríveis, o naipe das madeiras foi um deles.
   

   Caroline de Comi cantou com  belo timbre, seus agudos brilhantes e a beleza da voz compensaram algumas falhas. Sua atuação cênica deu vida a uma Carolina viva e esperta. Pepes do Valle mostrou excelência como Geronimo, baixo que une atuação e canto com nível elevado de talento. Ana Lúcia Benedetti esteve soberba, voz prodigiosa e afinada. Jean William mantém o timbre áspero de sempre, sua entrada foi calamitosa, completamente perdido. Melhorou nos números seguintes, mas nada que empolgasse. Michel de Souza mostra que não foi por acaso eleito revelação lírica masculino por este Blog. Mostrou domínio vocal, técnica segura e excelente atuação como Conde Robinson.
   
   Ópera bufa tem que divertir, fazer rir, levar o público ao delírio. Pena que nesta ópera raras foram as vezes que isso aconteceu. 

Ali Hassan Ayache